Igi Lola Ayedun, Há muito venho sonhando com imagens que nunca vi IX, da série Eclosão de um sonho, uma fantasia, 2022.
2023.    Igi Lola Ayedun + Vitória Cribb + Sondra Perry
Tecnologias fabulativas para existências plenas

Texto crítico publicado na revista seLecT_ceLesTe sobre o trabalho das artistas

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Propondo experimentações sensíveis de mundos inventados, as artistas Igi Lola Ayedun, Sondra Perry e Vitória Cribb endereçam aniquilações e possibilidades de vidas pretas na realidade

A democratização de ferramentas digitais, ao mesmo tempo em que amplifica as vozes usualmente dissidentes, perpetua algoritmos e ferramentas de inteligência artificial que investem na contramão: absorvem inputs racistas dados por programadores igualmente racistas; aprendem a partir deles, os cultivam e os disseminam. Refletem, em suas imagens vigilantes e vigiadas, os códigos sociais hegemônicos que perpetuam as máculas do segregacionismo colonialista.
    Os trabalhos das artistas brasileiras Igi Lola Ayedun e Vitória Cribb e da estadunidense Sondra Perry atentam para o fato de que, por mais que se possa produzir por meio dessas tecnologias um grande corpo arquivístico de imagens de pessoas negras – cuja perenidade é rara na historiografia ocidental, em que o arquivo documental desses indivíduos sempre foi aniquilado –, este próprio arquivo converte-se em munição para o ataque. Como ferramenta de afirmação de existência, as artistas operam tecnologias digitais na criação de mundos em que pessoas pretas existem em plenitude – com potenciais de mudança e de denúncia.


Vitória Cribb: Sonho e vigilância


Vitória Cribb, @ILUSÃO [still], 2020.

Centrada em uma prática propositadamente ambígua, Vitória Cribb opera instâncias consagradas e antagônicas nos sistemas sociais, artísticos e estéticos contemporâneos por meio de animações e imagens em CGI (Computer Generated Images), e ambientes imersivos e de experimentação em realidade aumentada para a web. Ao desenvolver o conceito de "espontaneidade programada", a artista carioca aponta tanto para as falhas de um sistema rígido baseado na repetição mecânica que, às vezes, gera acidentais lampejos afetivos ou subjetivos, quanto para a supressão de uma espontaneidade pessoal alinhada ao comportamento computacional.
    Sobre vidas condicionadas a narrativas repetidas, Cribb desenvolveu @Ilusão (2020), um curta-metragem de animação que combina modelagem 3D e gravações de áudio da própria artista, apontando reflexões intensificadas pelo isolamento pandêmico em 2020. Em um tipo de necrovigilância, vivia-se em um contexto em que gráficos eram atualizados a cada minuto com números vertiginosos de mortes. A artista expressa seu desconforto com a exaustiva sensação de repetição modulada e aprisionante, que nega a sinuosidade e a imprevisibilidade dos fatos da vida fora das telas. Ao questionar a lapidação de gostos feitos por algoritmos, Cribb debate se as reflexões críticas não foram desarmadas, servindo como dispositivos ilusórios de mudança, mas que apenas nos mantêm presos a uma programação ininterrupta.


Vitória Cribb, VIGILANTE_EXTENDED [still], 2022.

    Em trabalho comissionado para a exposição coletiva Who Tells a Tale Adds a Tail, curada por Raphael Fonseca no Denver Art Museum, a artista realiza a videoinstalação VIGILANTE_EXTENDED (2022), que apresenta mulheres-ciborgues responsáveis por recolher informações que abastecem os sistemas digitais de vigilância. As protagonistas da obra combinam aspectos de estranheza e certa bestialidade, modeladas por Cribb em corpos repletos de olhos e orelhas espalhados pelo corpo. Ao mesmo tempo, exibe esses seres em poses convidativas ao olhar, flertando com a graciosidade e a sinuosidade de representações femininas helenísticas. Como medusas, as vigilantes atraem o olhar para usufruir da essência de quem as observa: sorvem suas informações para abastecer um sistema totalitário de vigilância. Entretanto, continuando o jogo espelhado proposto pela artista, essas entidades que parecem deter tanto poder são, na verdade, figuras passivas, sem poder algum de emissão de discurso formal, servindo apenas como instrumentos de vigilância. As figuras que parecem ser sobre-humanas são, na verdade, sub-humanas.


Vitória Cribb, VIGILANTE_EXTENDED [still], 2022.

    Cribb, a partir dessas dinâmicas, faz colidir noções hegemônicas que determinam o que se compreende por beleza e feiura em uma história da arte eurocêntrica, questionando a pertinência desses moldes binários no contexto contemporâneo. Transpassa esse debate, inclusive, para as leituras feitas acerca dos corpos de mulheres pretas, em um cenário atual assente em estruturas racistas e misóginas. Reitera de forma crítica a compreensão desses corpos como indesejáveis e intocáveis; indignos de amor, mas alvos de curiosidade; rapidamente substituíveis e descartáveis. A demonização taxativa, a subserviência humilhante e o silenciamento absoluto impostos pelo colonialismo às mulheres negras também são endereçados por Cribb de forma enfática na obra Prompt de Comando (2019).
 

Vitória Cribb, Prompt de Comando [stills], 2019.

    De cunho bastante autobiográfico, Prompt de Comando denuncia, através da própria plataforma da programação, as repetições esbravejadas a corpos dissidentes, objetivando que eles se adequem a um discurso não-crítico, linear, normatizado e padronizado. Cribb alarma sobre o paralelismo entre o tratamento de pessoas marginalizadas e máquinas: sem alma, são lidas como mercadorias, exploráveis de forma inesgotável, cujo conteúdo é facilmente vendido. Sobre o fundo preto do prompt de comando de seu computador pessoal, escreve confissões digitais semelhantes a escritas de um diário: instruções subjetivas que não conseguirão ser lidas pelos sistemas incapazes baseados na objetividade repetitiva.


Igi Lola Ayedun: Fabulação crítica

Igi Lola Ayedun recentemente divulgou na Internet a série Há Muito Venho Sonhando com Imagens que Nunca Vi, desenvolvida durante a Bolsa ZUM/IMS 2022, parte de um projeto em andamento intitulado Eclosão de um Sonho, uma Fantasia. A partir da constatação de um cenário contemporâneo em que a produção e o consumo de imagens são ininterruptos e tão dinâmicos quanto as possibilidades de suas criações, a artista paulistana conceitua este continuum como “mobilismo imagético” e propõe que suas fotografias sejam vistas como frames de cenas em movimento, capturando um fluxo sempre dinâmico, similar ao pensamento cinematográfico e à experiência do sonho - o próprio título da série reflete esse ritmo, “sonhando”, no gerúndio.


Igi Lola Ayedun, Há muito venho sonhando com imagens que nunca vi, da série Eclosão de um sonho, uma fantasia, 2022.

    As fotografias são criadas por meio de softwares de inteligência artificial, sobretudo a plataforma MidJourney, que usa a tecnologia text-to-image. Desta forma, Ayedun insere (ou ensina à máquina) um vasto corpo de texto que detalhadamente descreve a imagem a ser virtualmente fotografada. Com formação transdisciplinar, a artista também se aproveita do amplo repertório adquirido como diretora editorial de moda, quando desenvolveu a habilidade de descrever com precisão a configuração espacial de um set fotográfico - desde as direções dadas às pessoas retratadas, até a posição e o tipo de iluminação usados. A partir dos dados inseridos, a plataforma então apresenta quatro fotografias com diferentes interpretações das descrições propostas. Às vezes, Ayedun retroalimenta o sistema com as mesmas fotografias - desta vez na dinâmica image-to-image - gerando novas imagens com os padrões detectados nas fotografias analisadas.


Igi Lola Ayedun, Há muito venho sonhando com imagens que nunca vi, da série Eclosão de um sonho, uma fantasia, 2022.

    Alimentando a geração da imagem, Ayedun também fornece informações específicas sobre técnicas fotográficas em seus códigos, incluindo definições de câmera, lente, abertura de diafragma, tempo de exposição, distância focal e ISO. Esses aspectos tornam a imagem resultante parecida com uma fotografia em vez de uma composição abstrata. Eles não buscam uma classificação rigorosa para considerar as imagens como fotografias, mas sim uma revisão provocativa do que é entendido tradicionalmente como fotografia.
    A série é protagonizada por pessoas cuja pele, cabelo e/ou roupa são de cor azul ultramar. Ayedun continua sua profunda pesquisa sobre as origens e usos do pigmento que difunde essa cor em sistemas estéticos africanos ligados às suas ancestralidades. Reforça a presença dessa cor como marca cultural e determinante em vários sistemas estéticos, propondo imagens fantasiadas com esse matiz: "Em certo momento, eu via, sonhava e dizia que pessoas negras eram azuis", conta a artista à seLecT_ceLesTe. A ficção aqui não nega a negritude; concebe um cenário em que as dificuldades impostas aos corpos negros estigmatizados desaparecem, ao mesmo tempo em que reafirmam suas genealogias e suas existências em imagens sonhadas.


Igi Lola Ayedun, Há muito venho sonhando com imagens que nunca vi, da série Eclosão de um sonho, uma fantasia, 2022.

    Alinhada ao conceito de “fabulação crítica” de Saidiya Hartman – que a artista acredita ser um atravessamento teórico na produção artística da atual geração racializada –, propõe imagens sonhadas sobre vazios de informações e acúmulos autobiográficos. Desde a infância até o início da vida adulta, Ayedun desenvolveu uma série de problemas oculares congênitos que acarretaram sua atual visão monocular, com dificuldade de percepção de distâncias, profundidades e espaço. As imagens sonhadas, portanto, são construções visuais que lhe possibilitam experimentar – e gerar – cenas fisicamente inapreensíveis, mas possíveis através de tecnologias fabulativas. O olho, dispositivo óptico que o desenvolvimento da câmera fotográfica objetiva mimetizar, tem sua experiência reconstruída pela artista por meio de prompts de comando.


Igi Lola Ayedun, Há muito venho sonhando com imagens que nunca vi, da série Eclosão de um sonho, uma fantasia, 2022.

    Expandindo o projeto Eclosão de um Sonho, uma Fantasia, Ayedun atualmente desenvolve uma série de trabalhos com base em um software próprio que gera imagens abstratas a partir de encefalogramas. Usando dados coletados em 14 nós conectados à sua cabeça, a artista transforma ações corporais em um conjunto de dados que é interpretado e ensina o programa de inteligência artificial gerador de imagens. As obras serão apresentadas em uma exposição na Pivô, em São Paulo, no início de abril.


Sondra Perry: Outro azul

O uso de um azul predominante para tratar das intersecções entre arte, questões raciais e tecnologia é levado a outras direções por Sondra Perry. A artista estadunidense, cuja obra é incontornável no âmbito das artes digitais, utiliza em alguns de seus trabalhos o azul típico do chroma key, empregado em filmagens para retirar elementos no processo da edição. Perry argumenta que, além da cor ter sido estabelecida na prática audiovisual por contrastar com a maioria das cores de pele humana, ela representaria o anverso da cor do ser: já que nenhuma cor de pele se aproximaria desse azul, ele é lido como espaço negativo, cujo corpo é subtraído e inexistente. Perry denuncia que os corpos de pessoas pretas são percebidos dessa forma na sociedade contemporânea.


Sondra Perry, IT`S IN THE GAME `18 or Mirror Gag for Projection and Two Universal Shot Trainers with Nasal Cavity and Pelvis, 2018.

    Amplificada pelos instrumentos tecnológicos em dinâmicas racistas de vigilância, a existência das pessoas pretas é propositalmente removida de histórias e imagens, como o faz o chroma key. Perry pareia a ação de retirar o fundo azul e isolar os indivíduos pela ferramenta do chroma key com a dissociação entre corpos e suas narrativas contextualizantes, o que se ilustra pela falta de representatividade de pessoas pretas e pelas privações de suas próprias histórias a partir de dinâmicas hegemônicas de discurso. Sobrepostos ao fundo azul, a artista dispõe no espaço objetos feitos de barras esportivas, simulando jogadores de basquete em posições de defesa. Monitores fixados a esses objetos exibem trechos de corpos modelados pela artista, que pontua que, em alguns contextos, pessoas pretas são mais aceitas, como no basquete estadunidense, mas que tal inserção é feita a partir de um processo maior de apagamento e de exotização. Ao anexar reminiscências em objetos descontextualizados, Perry traça explícitos paralelos autobiográficos, com fotos de infância em visita ao Metropolitan Museum de Nova York, por exemplo, vivenciando acervos museológicos ocidentais formados a partir do saqueamento de patrimônio histórico africano.


Sondra Perry, Typhoon coming on, 2018.

    Em Typhoon Coming On [Tufão Se Aproximando], animação de 2018, a artista manipula digitalmente a imagem da pintura feita em 1840 por J. M. W. Turner, intitulada Slave Ship (Slavers Throwing Overboard the Dead and Dying, Typhoon Coming On) [Navio Negreiro (Escravos Jogando ao Mar os Mortos e Moribundos, Tufão Se Aproximando)], onde se representa o afogamento de 133 escravizados pelo capitão do navio britânico. Perry denuncia que o assassinato de escravizados durante as viagens era uma estratégia de alguns países europeus que, para conseguir dinheiro, acionavam os seguros de seus navios e atestavam que durante a viagem haviam perdido seus “bens” – e não “pessoas”, como afirma a artista em vídeo a Serpentine Galleries.


Texto originalmente publicado em inglês na seLecT_ceLesTe #57, em março de 2023
 

Igi Lola Ayedun, Há muito venho sonhando com imagens que nunca vi, da série Eclosão de um sonho, uma fantasia, 2022.



Vitória Cribb, VIGILANTE_EXTENDED [still], na exposição Who tells a tale adds a tail no Denver Art Museum, 2022.


Vitória Cribb, @ILUSÃO [still], 2020.



Vitória Cribb, Prompt de Comando [stills], 2019.


Sondra Perry, vista da exposição Sondra Perry, Bridget Donahue Gallery, New York, 2018.


Sondra Perry, Title TK 1 e Title TK 2, 2018.



Sondra Perry, vistas da exposição Typhoon coming on, 2018, Serpentine Sackler Gallery, London, foto Mike Din.


Todas as imagens são cortesia das artistas ou suas galerias.