Jorge Eiró, Jazidas de ouro e sangue (dos Labirintos Líquidos do Coração), 2019
2019.    Jorge Eiró
Tanto Mar

Exhibition text for the artist’s solo show at Espaço Santa Catarina, Lisbon


11.07-11.20.2019
Espaço Santa Catarina, Lisbon


Tanto mar
[Poruguese only]


Utopia de um homem que navega
 
Em veleiro de azulejos de um outro barroco da Belém de cá, o artista toma o oceano aberto, rumo a um lugar utópico. Não navega com a bússola: o sismógrafo é seu guia. O detector dos sintomas, das paixões, do id. Ide! Andarilho dos Andes luso-andaluzes, prefere navegar por não-lugares, pois assim o permite a serenidade. Procura, lá fora, um lugar que corresponda a seus elaborados mapas que defende e intervém com seu pincel-espada. Estas cartografias, que podem ser utilizadas tanto por técnicos geógrafos por sua precisão científica-alquimista, quanto para ilustrar as mais oníricas fábulas do realismo mágico e cartões postais de uma cidade delirante, misturam-se entre palavras aquareladas e imagens datilografadas. Estão espelhadas em labirintos de bronze com muitas escadas, portas e muros. Às vezes, se chamam Mnemosyne; às vezes, Babel.
    Ao pé de cada degrau, o navegante-cais escreve em seu mapa um retrato dos belíssimos fantasmas que encontra. Algumas destas imagens são recorrentes, embora nunca se reconheçam iguais, pois são sempre dobradas, espelhadas e manipuladas pelo tecnológico método do cartógrafo, operado entre astrolábios amorosos, esquadros quânticos e curiosos microscópios de vidro verde com uma estrela vermelha. Arquiteta-se, nestas escrileituras, a estrutura de um romance colecionista, fragmentos de um discurso amoroso, um devir inacabável, com alguns protagonistas. A ninfa, a Belém memoriosa, flui graciosamente pelo labirinto: as dobras de suas vestes líquidas de um ocre terroso tentam e refletem a calma saudade do navegante de sempre ter aonde ir. A imagem da mênade se repete infinitamente nos espelhos do labirinto, onde a distinção entre o original e o espelhado não tem importância. A serpente, seu dragão de São Jorge, ostenta ser o emblema de seu vastíssimo bestiário, encanto dos mais audaciosos naturalistas que já sonharam com as fantasias amazônicas.
    E, assim, audaciosa e apaixonadamente, o navegante-dédalo monta seu arquivo, sem ser assombrado por sua infinitude. Afinal, como carregar o peso do universo sobre as costas? Como manejar os astros? O cicerone atlântico contempla sua constelação de afetos na noite estrelada sobre o Guamá enquanto repousa no dorso do seu dragão. Nessa confusão de imagens sobreviventes, se sente em casa. Está feliz. Procura um porto e percebe que o é.


Text originally published at the group exhibition Tanto Mar, with Jorge Eiró, Geralde Teixeira, Ruma de Albuquerque, Marcone Moreira and Genison Oliveira, at Espaço Santa Catarina, Lisbon, on view from November 7 to 20, 2019

Jorge Eiró, Das Fortalezas da Solidão (“Todo cais é uma saudade de pedra” - F.P.), 2019


Jorge Eiró, A Grande Onda em Nazaré – Surfando com Hokusai e Van Gogh (na companhia de Geraldo e Ruma), 2019